Frases

Verbete: arte



3. Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação;
4. A capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos
(Dicionário Aurélio Eletrônico, Editora Nova Fronteira)








... “a obra de arte é uma mensagem fundamentalmente ambígua, uma pluralidade de significados que convivem num só significante.          (Umberto Eco) [1]

“Uma obra de arte, ou um sistema de pensamento, nasce de uma rede complexa de influências, a maioria das quais se desenvolve ao nível específico da obra ou sistema de que faz parte; o mundo interior de um poeta é influenciado e formado pela tradição estilística dos poetas que o precederam, tanto e talvez mais  do que pelas ocasiões históricas em que se inspira sua ideologia; e através das influências estilísticas ele assimilou, sob a espécie de modo de formar, um modo de ver o mundo.” (Umberto Eco)



Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar em que essas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem. (Foucault)

A linguagem na episteme moderna revela não mais diretamente a identidade do mundo, mas as relações entre as coisas e o homem.  (Foucault)

“se a linguagem exprime, não o faz na medida em que imite e reduplique as coisas, mas na medida em que manifesta e traduz o querer fundamental daqueles que falam." (Foucault, 1992).



“A noite não anoitece pelos meus olhos, A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.”

Alberto Caeiro. In: Pessoa, 1986, p.172

tABACARIA / FERNANDO PESSOA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto.
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), [...]

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),


“Procurar definir música - que de toda forma não é um objeto, mas um processo - é um pouco como tentar definir poesia: trata-se, pois, de uma tentativa felizmente impossível, haja vista a futilidade que existe em querer traçar os limites que separam a música do que não é mais música, entre a poesia e não-poesia.” (Luciano Berio )


 [...]
Se alguém pergunta o
porquê do se fazer,
responde-se o porquê do
perguntar.
O tecer não tem um
Porquê enquanto ato de  
Entrelaçar.
O entrelaçar significa.

(José Eduardo Gramani)




Fui dar umas voltas lá fora
Nas voltas que o mundo dá
Cada um é cada um
No desejo e no sonhar
           \                                               (Itaércio Rocha)

Helena Kolodi
Ressonância

Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.
                                    
Poesia mínima
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.
DOM
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.
Acaso
A inspiração
irmã do vento
sopra onde quer.
Desafio
A via bloqueada
Instiga o viajante teimoso
a abrir nova estrada.
              
   O que vigia e reprime,
passa por baixo do pano
e salta na arena do circo 
Pássaros libertos 
Palavras são pássaros
Voaram!
Não nos pertencem mais.




“A arte tem, decerto, uma história, mas nela se sobrepõem infindavelmente rastros de todas as histórias.”
BERNARDO, João. As palavras e as pedras.

Nenhuma obra artística é artística por sua própria natureza, pela forma que foi feita ou por sua estrutura ou até mesmo tempo ideal de seu criador. Para haver arte é preciso haver quem a olhe com olhar estético, que a transforme de objeto-coisa em objeto-arte. [2]
A arte não é uma ruína, um despojo, um objeto que possa ter validade por si. Enquanto arte, ela só existe se for investida desse significado por aqueles que a olham, ou a escutam.
BERNARDO, João. As palavras e as pedras.

Um objeto dos kamaiurá, um cesto ou máscara, converte-se em obra de arte pelos olhos de quem vê, não de quem o fez. Uma sinfonia de Mozart pode ser barulho, ruído incômodo para algumas orelhas.

Na tradução de um poema, o essencial não é a reconstituição da mensagem, mas a reconstituição do sistema de signo em que está incorporada a mensagem, da informação estética, não da informação propriamente semântica. Por isso sustenta Walter Benjamin que a má tradução (de uma obra verbal, entenda-se) caracteriza-se por ser a simples transmissão da mensagem original, ou seja: a transmissão inexata de um conteúdo inessencial.
CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável, p.100


o poema é o autor do poeta                                (José Paulo Paes



Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar"" de Siba e Fuloresta.
"Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar."
 Um passeio pelo mundo livre / Chico Science
"Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar"–
Lixo do Mangue/ Chico Science
Vamo simbora que o mundo arrudiou
Vamo simbora que o mundo arrudiou
E se eu ficar parado aqui eu não vou
E se eu ficar parado aqui eu não vou

Gilberto GIL /ORIENTE
Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece Consideração

O deus Mu dança!
               O eterno deus Mu dança!
               Talvez em paz Mu dança!
               Talvez com sua lança 
[...]


 [...] a atenção ao acontecimento é a atenção ao humano e a sua complexidade. Tomar a aulas como acontecimento é eleger o fluxo do movimento como inspiração, rejeitando a permanência do mesmo e a fixidez mórbida do passado.
GERALDI, João Wanderley (2004a). A aula como acontecimento, p.21.

 [...] ao vermos, ouvirmos, sentirmos algo, um fluxo de imagens aparece; falas antigas ecoam; sons e músicas tocam nos ouvidos da mente, que lembra de cenas e filmes e fotos; detalhes são recordados e uma rememoração de movimentos vem tomar presença; a imaginação estimulada devaneia e fantasia o que não existiu; os desejos aparecem para dizer um olá; indicando direções, medos e afetos mostram sua cara, nem sempre de modo direto; futuros sonhados delineiam-se e um continuum parece fazer a ligação entre todo este conjunto, que é o que chamamos aqui de ressonâncias.
 REÑONES, Albor Vives (2004). O imaginário grupal: mitos, violência e saber no Teatro de Criação, p. 47.


Signos, sonhos, sombras, imagens
quem vai saber.
 quantas lembranças trazem. 
 (p.leminski)

prazer
da pura percepção
os sentidos
sejam a crítica
da razão

“A sucessão das estações, a semeadura, a concepção, a morte, e o crescimento são os componentes dessa vida produtora. A noção implícita do tempo contida nessas antiqüíssimas imagens é a noção do tempo cíclico da vida natural e biológica” (Bakhtin, 1993, p. 22). [...]

não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade moderna, (Saramago, 8)[3]


Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias, o passado como se tivesse sido agora, o presente como um contínuo sem princípio nem fim [...]
(Saramago, 12)


“[...]é de humano costume declarar o que somos antes de dizer ao que vimos, mormente em caso de tanta importância [...]” (Saramago, 77)

Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. [4]
[...] quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, [5]

SANTOS, Boaventura de Sousa. Ao espelho no hostal del Bosque Izquierdo.
[...]As águas pensam.
Quando pensam muito
chamam-se espelhos.




o ser humano não é apenas um ser e a sua circunstância. É também, e sobretudo, o que falta na sua circunstância para que ele possa ser verdadeiramente humano.[6]


É o modo de produção de não-existências mais poderoso. Consiste na transformação da ciência moderna e da alta cultura em critérios únicos de verdade e de qualidade estética, respectivamente. A cumplicidade que une as “duas culturas” reside no facto de ambas de arrogarem a ser, cada uma no seu campo, cânones exclusivo de produção de conhecimento ou de criação artística. Tudo o que o cânone não legitima ou reconhece é declarado inexistente. A não-existência assume aqui a forma de ignorância ou de incultura. (T, 12)

[...] há muita gente  a querer falar dentro de nós[...][7]
temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza;
temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza.[8]       

a experiência social em todo mundo é muito mais ampla e variada do que a tradição filosófica ocidental conhece e considera importante, [...] esta riqueza social está a ser desperdiçada. (T, 2)


[1] Eco, Umberto, Obra Aberta, editora Perspectiva, São Paulo,1988
[3] SARAMAGO, José (1988). Jangada de pedra. Todos os textos deste livro serão referenciados como Saramago seguido da página do livro.
[4] SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.
[5] SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.
[6] SANTOS, Boaventura de Sousa (2008). Texto para um programa de concerto do compositor Antonio Pinho Vargas.
[7] SANTOS, Boaventura de Sousa (2005a). SCHWARTZ, Christian. Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz.
[8] SANTOS, Boaventura de Sousa (1999). A construção multicultural da igualdade e da diferença, p.61.